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Mais de 200 centros e uma aposta de US$ 5,7 bilhões: a cirurgia está saindo dos hospitais?

Em resumo

A Bon Secours Mercy Health planeja comprar uma empresa que administra mais de 200 centros de cirurgia e outros serviços de saúde em 30 estados dos Estados Unidos. Se o acordo for concluído no início de 2027, a instituição poderá ampliar seus negócios e ganhar mais força nas negociações com seguradoras. A operação também reflete uma mudança: cada vez mais cirurgias são feitas fora dos hospitais, em locais que podem sair mais baratos.

A proposta de aquisição colocaria a Bon Secours Mercy Health em posição de ampliar bastante sua atuação em cirurgias feitas sem uma longa permanência no hospital. Procedimentos que antes eram realizados principalmente em hospitais vêm sendo transferidos para outros tipos de unidade. Em 26 de outubro de 2026, a instituição sem fins lucrativos anunciou que pretende comprar a Surgery Partners, empresa de capital aberto que atua em dezenas de estados norte-americanos. O acordo, avaliado em US$ 5,7 bilhões, não representa apenas a compra de instalações: também sinaliza uma aposta numa rápida transformação dos locais onde os cuidados são prestados e da forma como são pagos.

O que está incluído no acordo?

A Surgery Partners administra mais de 200 centros de cirurgia fora dos hospitais, além de hospitais para internações curtas e consultórios médicos de várias especialidades, distribuídos por 30 estados. A proposta, portanto, não se limita a acrescentar salas de cirurgia à rede da Bon Secours Mercy Health. Ela inclui uma estrutura operacional mais ampla, com locais para realizar procedimentos e serviços médicos de diferentes áreas.

Os centros de cirurgia fora dos hospitais permitem que pacientes façam operações ou outros procedimentos sem que uma internação prolongada seja necessariamente parte do tratamento. Já os hospitais para internações curtas atendem a situações que exigem uma permanência limitada, enquanto os consultórios de várias especialidades oferecem serviços de profissionais de diferentes áreas. As informações disponíveis não detalham como as unidades da empresa se distribuem entre essas categorias nem identificam os estados em que estão. O que se sabe é que a rede é ampla e abrange 30 estados.

A conclusão do acordo está prevista para o primeiro trimestre de 2027, caso as etapas necessárias avancem conforme o planejado. Até lá, a ampliação da rede é uma possibilidade esperada, não um fato consumado. O valor de US$ 5,7 bilhões dá uma ideia da dimensão do negócio, mas, por si só, não revela como a aquisição será financiada, como a propriedade será distribuída ou quais regras operacionais entrarão em vigor depois da conclusão.

Por que as cirurgias estão migrando para fora dos hospitais?

A forma de prestar cuidados de saúde está mudando, com mais procedimentos sendo realizados em clínicas e centros de cirurgia fora dos hospitais. Essa tendência ocorre num contexto de alterações na maneira como alguns serviços são pagos pelo programa público Medicare. Além disso, seguradoras privadas incentivam seus clientes a recorrer a locais considerados menos dispendiosos do que os hospitais, quando esse tipo de unidade é adequado ao procedimento.

Para uma seguradora, encaminhar um paciente a uma unidade mais barata pode reduzir os gastos com determinadas operações. Para uma instituição de saúde, os centros especializados podem representar um investimento atraente se houver procura suficiente e se for possível administrá-los com eficiência. No entanto, um custo menor não significa que todo procedimento seja apropriado para um centro fora do hospital, nem que todos os pacientes possam receber o mesmo atendimento em qualquer unidade. O local da operação depende das necessidades do paciente, do tipo de intervenção e dos recursos médicos disponíveis.

A transferência de serviços também não elimina a função dos hospitais: ela redistribui os diferentes tipos de atendimento entre vários locais. Os hospitais podem continuar recebendo pacientes que precisam de mais recursos ou de uma internação mais longa, enquanto outras operações são feitas em centros preparados para atender pessoas que não necessitam permanecer por muito tempo. Assim, o crescimento desses centros revela uma mudança na organização dos cuidados, mas não significa que os hospitais vão desaparecer ou que todo o atendimento deixará de ser feito neles.

Lucros e negociações com as seguradoras

Ter uma rede ampla de centros de cirurgia pode abrir espaço para que uma instituição de saúde aumente a receita com serviços prestados fora dos hospitais. Esse é um dos motivos pelos quais esse tipo de ativo interessa às empresas do setor. Segundo as informações divulgadas sobre o acordo, espera-se que a aquisição ajude a Bon Secours Mercy Health a melhorar sua rentabilidade. Ainda assim, trata-se de uma previsão: o resultado dependerá de uma integração bem-sucedida das redes, da capacidade de administrar as unidades e da continuidade da procura por procedimentos realizados fora dos hospitais.

Outro ponto importante é o poder de negociação com as seguradoras. Uma instituição com mais locais de atendimento pode ter uma posição mais forte ao discutir preços e condições de cobertura, pois uma rede maior pode oferecer à seguradora acesso a mais unidades num único acordo. Mas o tamanho da rede, sozinho, não permite concluir que os preços dos seguros vão subir ou cair, nem garante que eventuais economias de operação beneficiarão os pacientes. Esses resultados dependerão dos contratos e dos preços, cujos detalhes não foram divulgados.

Por isso, é importante distinguir os interesses da instituição dos interesses dos pacientes. O acordo pode ampliar a capacidade de expansão da Bon Secours Mercy Health e fortalecer sua posição comercial, mas não basta para determinar o que acontecerá com as contas médicas, o acesso aos cuidados ou a qualidade do atendimento. Esses efeitos dependerão do que ocorrer depois da aquisição, da forma como os centros serão administrados e dos acordos firmados com as seguradoras.

Uma instituição sem fins lucrativos diante de uma operação comercial

A Bon Secours Mercy Health é uma instituição católica de saúde sem fins lucrativos, enquanto a Surgery Partners é uma empresa de capital aberto, com ações negociadas no mercado. A proposta aproxima dois tipos diferentes de organização que atuam num setor em que a prestação de cuidados convive com pressões sobre receitas e despesas. Ser uma instituição sem fins lucrativos não significa que ela dispense recursos financeiros ou que não procure melhorar seus resultados econômicos: os sistemas de saúde precisam financiar suas operações e investir em instalações e serviços.

Ao mesmo tempo, o valor do acordo não revela como a instituição vai equilibrar as necessidades dos pacientes e os objetivos financeiros após a aquisição. O que foi informado é que a expansão pode aumentar a rentabilidade e ampliar a influência da instituição nas negociações com as seguradoras. Não há, nas informações divulgadas, detalhes sobre planos para mudar os serviços, o quadro de funcionários ou as unidades. Portanto, não é possível presumir que a aquisição necessariamente levará ao fechamento ou à ampliação de centros, ou a mudanças na forma como funcionam.

O acordo também estreita a relação da Bon Secours Mercy Health com a Bain Capital, empresa de investimento privado. O anúncio disponível não explica a natureza nem os termos dessa relação, mas inclui parcerias com investidores no contexto da expansão. Esse aspecto merece atenção porque empresas de investimento privado estão presentes em diferentes segmentos do mercado de saúde, enquanto aumentam as compras de unidades e a consolidação de instalações em redes maiores.

Uma tendência mais ampla no mercado de centros cirúrgicos

A Bon Secours Mercy Health não está sozinha nessa área. No início de 2026, a instituição sem fins lucrativos Ascension comprou a AmSurg por US$ 3,9 bilhões. Com a aquisição, sua rede passou a contar com cerca de 300 centros de cirurgia fora dos hospitais. O negócio mostra que grandes instituições de saúde, sejam elas sem fins lucrativos ou com fins lucrativos, disputam espaço para ampliar sua presença nos cuidados prestados fora dos hospitais.

Os números das duas operações são diferentes: a compra da AmSurg pela Ascension foi avaliada em US$ 3,9 bilhões, enquanto a aquisição planejada pela Bon Secours Mercy Health está avaliada em US$ 5,7 bilhões. Depois da compra, a rede da Ascension passou a reunir cerca de 300 centros. A Surgery Partners, por sua vez, administra mais de 200 centros de cirurgia fora dos hospitais, além de hospitais para internações curtas e consultórios de várias especialidades. Esses dados, isoladamente, não permitem comparar com precisão o tamanho das empresas nem o valor de cada unidade, já que a variedade de serviços e a composição dos ativos são diferentes.

Ainda assim, as duas operações mostram que os centros de cirurgia se tornaram parte importante dos planos de crescimento dos sistemas de saúde. A expansão pode facilitar o acesso a novos mercados e a mais pacientes, além de permitir que os serviços sejam oferecidos em diferentes locais, sem depender exclusivamente dos hospitais. Para as seguradoras, o aumento do número de centros ligados a grandes instituições pode alterar as opções disponíveis aos pacientes e influenciar as negociações sobre redes de atendimento e preços.

O que acompanhar antes da conclusão do acordo?

O próximo passo fundamental é saber se a aquisição será concluída no prazo previsto, durante o primeiro trimestre de 2027. O anúncio da intenção de comprar a empresa não equivale à conclusão da operação, que pode depender do cumprimento de exigências e de outras etapas necessárias. As informações disponíveis não apresentam um calendário detalhado desses procedimentos nem outras condições que permitam afirmar que o negócio será fechado nessa data.

Depois da conclusão, integrar uma rede com mais de 200 centros a um grande sistema de saúde será um teste prático para a capacidade da instituição de administrar unidades espalhadas por 30 estados e coordená-las com os demais serviços. Os pacientes vão querer saber se os centros continuarão cobertos pelos planos de seguro que utilizam e se a expansão mudará os locais onde as operações são realizadas ou quanto custam. As seguradoras, por sua vez, terão de avaliar como os pacientes serão encaminhados entre hospitais e centros de cirurgia fora deles.

As questões financeiras também são importantes. A rentabilidade prevista será alcançada? E as economias geradas por alguns procedimentos feitos fora dos hospitais serão repassadas aos pacientes ou servirão principalmente para melhorar os resultados da instituição? As informações disponíveis não respondem a essas perguntas. A previsão de aumento da rentabilidade ou do poder de negociação não deve ser tratada como um resultado garantido. Ela indica os motivos que tornam o acordo atraente para a instituição; os efeitos concretos só ficarão mais claros quando houver detalhes sobre a execução.

Conclusão

O plano da Bon Secours Mercy Health de comprar a Surgery Partners por US$ 5,7 bilhões revela uma disputa crescente para construir grandes redes de atendimento cirúrgico fora dos hospitais. A Surgery Partners administra mais de 200 centros de cirurgia e outras unidades de saúde em 30 estados, e a conclusão do negócio está prevista para o primeiro trimestre de 2027. Se a operação for concluída, poderá melhorar a rentabilidade da instituição e fortalecer sua posição nas negociações com as seguradoras, além de estreitar sua relação com a Bain Capital. Mas ainda não está claro como isso afetará os pacientes, os preços ou o acesso a cuidados de qualidade. Com a compra da AmSurg por US$ 3,9 bilhões e uma rede da Ascension que passou a reunir cerca de 300 centros, fica evidente que uma parcela crescente das cirurgias poderá ser realizada fora dos hospitais. O impacto dessa mudança dependerá de como as redes serão administradas e de quem se beneficiará das economias geradas.