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O satélite britânico que sobreviveu ao próprio foguete — e ainda gira em torno da Terra

Em resumo

Em 1971, a Grã-Bretanha lançou um pequeno satélite usando um foguete que também tinha construído. O satélite continuou a funcionar mesmo depois de ser atingido por uma parte do foguete e, embora tenha deixado de enviar sinais regularmente em 1973, ainda permanece em órbita. A missão foi um marco, mas o programa de foguetes britânico acabou após apenas quatro lançamentos.

Uma viagem que começou numa base australiana

Em 28 de outubro de 1971, o Prospero, também conhecido pelo código X-3, foi lançado do campo de testes de Woomera, no sul da Austrália. Woomera era uma base usada para testes de foguetes; foi dali que o satélite partiu a bordo do Black Arrow, um foguete britânico desenvolvido para colocar satélites em órbita. O Prospero não foi o primeiro satélite britânico: antes dele, seis satélites já tinham sido enviados ao espaço a partir dos Estados Unidos, usando foguetes da NASA. Mas a missão do Prospero foi diferente: desta vez, o foguete também era britânico.

Por isso, dizer que foi o primeiro satélite britânico não significa que a Grã-Bretanha nunca tivesse enviado um satélite ao espaço. A distinção é mais específica: o Prospero foi o primeiro satélite britânico lançado por um foguete construído no próprio país — e continua sendo o único. Essa diferença entre a nacionalidade do satélite e a origem do foguete é importante para entender o significado da missão. Ter um equipamento em órbita não é o mesmo que dispor de meios próprios para levá-lo até lá.

O lançamento foi o quarto e último voo do Black Arrow, identificado como R-3. O foguete tinha três estágios e 12,87 metros de altura, ou cerca de 13 metros. Seu projeto se baseava no foguete menor Black Knight, usado em pesquisas com foguetes. O próprio Prospero tinha uma massa de 66 quilogramas, mostrando que a missão não dependia de uma nave de grandes dimensões: seu objetivo era colocar uma carga de pesquisa específica em órbita ao redor da Terra.

Um pequeno laboratório para testar o ambiente espacial

O satélite não foi enviado ao espaço apenas para demonstrar que era possível chegar à órbita. Sua missão era investigar como as condições do espaço afetavam componentes usados em satélites de comunicação. Equipamentos que funcionam longe da Terra precisam de células solares para produzir energia e de sistemas que meçam seu desempenho e enviem dados sobre ele. O Prospero serviu como plataforma para testar componentes desse tipo em órbita, em vez de depender apenas de ensaios feitos em terra.

Entre os equipamentos a bordo estavam células solares e sistemas de telemetria, isto é, de envio às estações terrestres de informações sobre o estado do satélite e de seus aparelhos. Esses testes eram importantes porque o sucesso de uma missão não depende só de chegar à órbita: os equipamentos também precisam continuar funcionando e informar às equipes em terra o que está acontecendo. Por isso, os sistemas de comunicação e de telemetria eram uma parte essencial da experiência.

A carga incluía ainda um detector de micrometeoritos. Esse tipo de instrumento registra os efeitos das colisões entre pequenas partículas e a nave, ajudando a avaliar se essas partículas representam um risco para os veículos espaciais. A questão era prática: mesmo um objeto minúsculo pode causar danos se atingir um satélite, e é importante saber que impacto isso pode ter. Ao reunir esse detector com os testes de células solares e de comunicação, a missão investigou diferentes aspectos da capacidade de o satélite e seus equipamentos continuarem funcionando.

Uma órbita oval e um acidente após a separação

O Black Arrow colocou o satélite numa órbita oval, cuja altitude variava entre 522 e 1.300 quilômetros acima da superfície da Terra. Assim, o Prospero não se mantinha sempre à mesma altura: em uma parte do trajeto, chegava ao ponto mais baixo; depois, afastava-se até alcançar o ponto mais alto e completar a volta. Esses valores descrevem o percurso que permitiu ao satélite cumprir sua missão e delimitam com precisão a faixa de altitude da órbita.

O lançamento foi bem-sucedido, mas a separação entre a carga e o último estágio do foguete não ocorreu sem consequências. Depois que o satélite se afastou do foguete, o estágio final colidiu com ele e quebrou uma de suas quatro antenas de rádio. O dano não impediu o Prospero de funcionar, mas foi uma avaria real numa nave que acabara de chegar ao espaço. O episódio mostra que colocar um foguete em órbita não significa que todas as etapas da entrega da carga estarão livres de riscos.

Apesar de perder uma antena, o Prospero continuou a cumprir sua função. Esse detalhe é importante para avaliar os resultados da viagem: o satélite sofreu danos em parte de seus equipamentos, mas a missão não foi interrompida de imediato. O acidente não se transformou num fracasso completo nem anulou o valor dos testes realizados em órbita. Ele passou a fazer parte do histórico da missão, ao lado do lançamento bem-sucedido e da continuidade das operações do satélite.

Do sucesso em órbita ao cancelamento do foguete

O Black Arrow fez o que deveria nessa missão, mas não se tornou um meio de lançamento de uso contínuo. A viagem do Prospero foi a quarta e última do foguete, cujo histórico terminou com dois sucessos e dois fracassos. Em outras palavras, o programa teve quatro voos ao todo: dois foram bem-sucedidos e dois falharam. Depois disso, foi cancelado, embora o voo do Prospero tivesse levado uma carga à órbita.

Por isso, as histórias do foguete e do satélite tiveram desfechos diferentes. De um lado, o lançamento demonstrou que a Grã-Bretanha era capaz de construir um foguete orbital e usá-lo para enviar um satélite britânico ao espaço a partir de uma base na Austrália. De outro, o programa não continuou e não transformou a conquista no início de uma série de lançamentos nacionais. O balanço final do Black Arrow inclui um sucesso importante, mas também dois fracassos, e o programa terminou depois de seu quarto voo. A missão permaneceu um caso isolado, em vez de se tornar algo recorrente.

Na história espacial britânica, a importância do Prospero está em ter reunido, numa mesma missão, o projeto do satélite e o do foguete. Os seis satélites britânicos anteriores tinham chegado ao espaço em foguetes lançados dos Estados Unidos; desta vez, o Black Arrow ofereceu um meio de lançamento nacional. Como o programa foi cancelado, a conquista não se repetiu. Assim, o Prospero continua sendo o primeiro e único satélite britânico lançado por um foguete britânico, de acordo com o histórico dessa missão.

Os sinais cessaram, mas o satélite ficou em órbita

O Prospero funcionou em órbita por cerca de dois anos, e as comunicações regulares com ele terminaram em 1973. A interrupção dos contatos periódicos, porém, não significava que o satélite tivesse desaparecido ou voltado à Terra: ele continuou em órbita. Segundo as informações disponíveis, houve pelo menos um contato com ele em cada ano até 1996. Portanto, mesmo depois do fim das operações regulares, a ligação com a Terra se manteve de forma esporádica por muitos anos.

Há uma diferença entre o fim das comunicações regulares e o fim da presença de uma nave no espaço. No primeiro caso, as estações deixam de receber relatórios contínuos sobre o funcionamento do satélite, como acontecia durante a missão. No segundo, o objeto deixa de estar em órbita — o que não aconteceu com o Prospero. O satélite permaneceu no espaço depois do fim de sua vida útil, como vestígio de uma missão encerrada tecnicamente há muito tempo, mas ainda presente no ambiente orbital.

Essa permanência também levanta a questão da responsabilidade pelos objetos que as missões deixam no espaço. Um veículo que já não tem utilidade pode continuar girando ao redor da Terra. Por isso, em 2021, a empresa escocesa de exploração espacial Skyrora anunciou um plano para recuperar o Prospero e retirá-lo da órbita. A proposta não consistia apenas em enviar outra nave até ele: a empresa falou em usar um rebocador espacial para se aproximar do satélite, capturá-lo e puxá-lo para fora da órbita, de modo que reentrasse na atmosfera terrestre.

A empresa associou a proposta à responsabilidade pelos objetos enviados ao espaço e à necessidade de usar a órbita de maneira mais sustentável. Ao anunciar o plano, Volodymyr Levykin, fundador e diretor-executivo da Skyrora, disse que recuperar o Prospero seria uma forma de assumir a responsabilidade pelo que foi colocado em órbita e de reafirmar o compromisso com o uso sustentável do espaço. Essa iniciativa continua sendo um plano anunciado em 2021; o anúncio, por si só, não comprova que a recuperação tenha sido realizada.

Os planos da empresa também incluíam lançar seu foguete Skyrora XL a partir do SaxaVord Spaceport, na Escócia. Essa proposta combina a ambição de recuperar um satélite antigo com a tentativa de desenvolver um novo meio de lançamento britânico. Mas a história sempre volta ao próprio Prospero: um objeto relativamente pequeno, que chegou à órbita décadas atrás num foguete nacional e continuou a girar ao redor da Terra depois que as comunicações operacionais foram interrompidas.

Por que uma única missão se tornou um marco?

A viagem do Prospero reúne mais de um tipo de conquista. Foi um feito técnico, porque um foguete britânico de três estágios levou uma carga à órbita; uma experiência científica, porque o satélite testou células solares, sistemas de telemetria e um detector de pequenas partículas; e um marco histórico, pois a combinação de um satélite britânico com um foguete britânico não voltou a acontecer. Ao mesmo tempo, o fim do programa Black Arrow mostra que o sucesso de uma missão não basta para garantir a continuidade de um sistema de lançamentos.

Os detalhes da viagem tornam esse registro técnico mais próximo das pessoas, sem alterar os fatos: uma das quatro antenas foi danificada, mas o satélite continuou funcionando; as comunicações regulares terminaram em 1973, mas a nave não deixou a órbita; e o foguete teve sucesso em sua última missão, embora o programa tenha sido cancelado após quatro voos, dos quais apenas dois foram bem-sucedidos. Esses acontecimentos fazem do Prospero uma história de conquista que não teve continuidade, e não de um triunfo sem contratempos.

A permanência do satélite no espaço também levou sua história para além do lançamento e dos testes, trazendo à tona a questão do que fazer com os veículos depois que suas missões terminam. A viagem iniciada em Woomera, em 1971, não é apenas um episódio histórico: o Prospero ainda está em órbita, e a ideia de recuperá-lo passou a fazer parte da discussão sobre como lidar com objetos espaciais antigos. A história do Prospero, desde o lançamento até a possibilidade de remoção, levanta duas questões: como chegar ao espaço e que responsabilidade temos pelos objetos que permanecem lá.

Conclusão

Em 28 de outubro de 1971, o Prospero, ou X-3, alcançou um marco britânico ao chegar à órbita a bordo do Black Arrow, foguete construído no Reino Unido. Com massa de 66 quilogramas, o satélite levava equipamentos para testar células solares e sistemas de telemetria, além de um detector de pequenas partículas. Entrou numa órbita entre 522 e 1.300 quilômetros de altitude. Embora o estágio final do foguete tenha colidido com ele e quebrado uma de suas quatro antenas, o Prospero continuou funcionando até o fim das comunicações regulares, em 1973, e houve contatos esporádicos até 1996. O programa do foguete foi cancelado depois de quatro voos — dois bem-sucedidos e dois fracassados —, mas o satélite permaneceu em órbita. Sua missão continua sendo um marco único na história dos lançamentos britânicos e está no centro de um plano de recuperação anunciado em 2021.