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Starlink ou Starshield: quem controla os satélites que podem mudar uma guerra?

Em resumo

A Starlink é um serviço de internet por satélite usado por pessoas, empresas e governos. A Starshield também recorre a tecnologias da SpaceX, mas foi criada para atender a necessidades de segurança nacional e inclui sistemas e equipamentos próprios. A diferença entre as duas ajuda a entender quem pode usar cada rede e quem decide como ela funciona.

Uma vasta rede de internet para o público

A Starlink é um serviço de internet que utiliza satélites em órbita relativamente baixa da Terra. Segundo os números divulgados pela empresa, a rede tem mais de 11 mil satélites dedicados à banda larga e à conectividade móvel. Eles orbitam a cerca de 342 milhas, ou aproximadamente 550 quilómetros, de altitude. A rede foi construída ao longo de vários anos, com lançamentos feitos por foguetes Falcon 9.

A proposta da Starlink é comercial e voltada para diferentes tipos de clientes. Uma família que vive numa região remota, uma empresa ou uma companhia aérea pode comprar o equipamento de ligação e contratar um plano de serviço. A rede cobre mais de 160 países e também oferece serviços a governos e entidades públicas. Estas organizações podem usá-la para comunicações do dia a dia, resposta a desastres ou atividades relacionadas com a segurança nacional.

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022 e ainda em curso, mostrou que a internet por satélite pode tornar-se um recurso importante quando as redes de telecomunicações terrestres são danificadas. Mas o facto de um governo ser cliente da Starlink não transforma automaticamente o serviço comercial num sistema militar independente. Em geral, a SpaceX vende a Starlink com os planos, equipamentos e condições de utilização que administra.

É aí que se percebe a diferença entre o tipo de cliente e a natureza do produto. Uma entidade governamental pode usar a Starlink, tal como uma empresa ou uma pessoa, mas isso não significa que todas as comunicações do governo passem pela Starshield, nem que os clientes comerciais tenham acesso a capacidades criadas para a segurança nacional. O nome da rede, por si só, nem sempre revela que equipamento está a ser usado, qual é o nível de proteção ou quem define as regras de funcionamento.

Starshield: tecnologias espaciais ao serviço da segurança nacional

A SpaceX anunciou o programa Starshield em dezembro de 2022 como uma forma de adaptar a experiência adquirida com a Starlink e a sua capacidade de lançar foguetes às necessidades do governo. As áreas inicialmente apresentadas abrangiam três frentes: observação da Terra, comunicações e transporte de equipamentos ou cargas governamentais a bordo de satélites. Por isso, a Starshield não deve ser entendida apenas como uma assinatura de internet mais segura: o nome abrange vários recursos e serviços destinados a missões diferentes.

Segundo o investigador de política e assuntos espaciais Bleddyn Bowen, os satélites usam uma estrutura básica do mesmo tipo que a dos satélites Starlink, mas podem levar equipamentos adicionais e sistemas mais protegidos. Em termos simples, dois satélites podem parecer semelhantes por fora, embora os aparelhos e programas informáticos a bordo sejam diferentes, tal como as tarefas para as quais foram concebidos. Os serviços da Starshield incluem comunicações encriptadas para utilizadores militares, além de outras capacidades cujos detalhes não são todos públicos.

A empresa afirma que, em 2026, obteve vários contratos plurianuais do Exército dos Estados Unidos, no valor de milhares de milhões de dólares, para prestar serviços relacionados com a Starshield. No entanto, não há informação pública detalhada sobre as finanças e o funcionamento de algumas partes do programa, e certos lançamentos associados a ele são classificados como secretos. Alguns satélites podem transportar sensores para atividades de inteligência e vigilância, mas não é possível confirmar a natureza e as capacidades dessas cargas apenas com base nos dados disponíveis ao público.

A falta de informação não significa que todos os satélites designados Starshield tenham uma função de espionagem, nem que todas as partes do programa sigam o mesmo modelo. Pelo que se sabe, o projeto reúne diferentes tipos de satélites e sistemas: satélites de reconhecimento, satélites de transmissão de dados e equipamentos de comunicação usados em terra. A missão depende do contrato e da entidade governamental que recebe o serviço, enquanto muitos aspetos continuam fora do alcance do público.

Satélites de reconhecimento e transmissão de dados

Entre os componentes do sistema estão satélites de reconhecimento lançados em missões para o National Reconnaissance Office dos Estados Unidos, conhecido pela sigla NRO. O órgão não usa necessariamente o nome Starshield para se referir a estes satélites, mas anunciou, no início de 2026, que tinha lançado mais de 200 satélites nos anos anteriores e que muitos deles faziam parte de uma estrutura de reconhecimento distribuída. Este tipo de rede inclui satélites de observação ótica, outros que usam radar e satélites que retransmitem dados entre sistemas.

Esta abordagem difere da dependência exclusiva de um pequeno número de satélites grandes. Uma frota mais ampla de satélites pode permitir que as tarefas e as comunicações sejam distribuídas por várias unidades em órbita. Ainda assim, não estão disponíveis todos os detalhes sobre o desenho dos satélites, o número exato ou as funções de cada um. Por isso, os números divulgados devem ser vistos como uma indicação da dimensão do programa, não como uma descrição completa das suas capacidades.

Há ainda outro projeto: a estrutura principal da rede de dados espaciais, anteriormente conhecida como MILNET. A Força Espacial dos Estados Unidos atribuiu à SpaceX um contrato de preço fixo no valor de 2,29 mil milhões de dólares para construir a rede com satélites Starshield. A função prevista é transmitir dados rapidamente entre sensores de alerta de mísseis e sistemas de interceção, no âmbito do plano de defesa antimíssil dos Estados Unidos, chamado Golden Dome.

De acordo com o calendário anunciado, espera-se que um protótipo desta rede fique pronto até ao final de 2027. Um responsável da Força Espacial descreveu o projeto como propriedade do governo, mas disse que a SpaceX o operaria na qualidade de empresa contratada, sob supervisão da Força Espacial. Este modelo mostra que a propriedade do sistema, a sua operação e o fabrico dos seus componentes podem estar nas mãos de entidades diferentes, em vez de pertencerem todos a uma única empresa ou instituição governamental.

Duas redes distintas, com alguns pontos de contacto

A partilha de algumas tecnologias não significa que os satélites Starshield sejam os mesmos que os da Starlink. Segundo as explicações disponíveis, os satélites destinados à Starshield são fisicamente distintos dos que compõem a rede comercial. Ainda assim, alguns serviços de segurança nacional dos Estados Unidos podem recorrer à infraestrutura da Starlink quando necessário. Isso cria uma ligação operacional entre os dois sistemas, sem apagar a separação entre eles.

Os utilizadores militares podem obter comunicações encriptadas através de terminais próprios da Starshield ou usar equipamentos Starlink para aceder a serviços da Starshield. Isso não quer dizer que qualquer cliente comercial possa transformar o seu equipamento num canal militar ou aceder à infraestrutura governamental. A possibilidade de ligação entre os sistemas destina-se aos utilizadores americanos envolvidos em atividades de segurança nacional e não é apresentada como uma opção para o cliente comum da Starlink.

As regras de utilização também são diferentes. Elon Musk afirmou que as condições de serviço da Starlink não permitem usá-la para realizar ataques com drones. Já as decisões sobre o uso da Starshield cabem ao governo dos Estados Unidos, que é a entidade governamental beneficiária do sistema. É importante não confundir as regras do serviço comercial com as decisões relativas a uma infraestrutura governamental ou militar.

O episódio na Ucrânia põe o controlo em evidência

Em outubro de 2026, responsáveis ucranianos disseram que equipamentos de comunicação associados à Starshield deixaram de funcionar a velocidades superiores a 160 quilómetros por hora, ou 100 milhas por hora. Segundo a versão ucraniana, o problema começou em 14 de outubro e afetou a capacidade dos operadores de drones para realizar missões defensivas e interceptar drones russos. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, afirmou que as comunicações foram totalmente restabelecidas em 24 de outubro.

O episódio não esclareceu publicamente todas as dúvidas sobre quem tomou a decisão nem sobre a causa técnica da restrição. Por isso, os relatos da interrupção não permitem concluir que a SpaceX agiu por conta própria ou que o governo dos Estados Unidos deu uma ordem específica. A informação publicada não descreve por completo a cadeia de decisões entre a empresa e as autoridades governamentais. Ainda assim, o caso ampliou o debate sobre quem controla a rede.

O fabricante de um satélite não é necessariamente quem tem a decisão final sobre a sua missão. O governo dos Estados Unidos é o cliente da Starshield e pode ser proprietário de alguns sistemas, enquanto a SpaceX fabrica satélites e gere a rede Starlink, na qual certos serviços podem apoiar-se. Em alguns contratos, a empresa também opera satélites Starshield. Mas nem sempre é claro, em todos os casos, como se dividem os poderes entre os operadores e os responsáveis governamentais.

Para explicar este tipo de organização, Bowen comparou a situação ao sistema britânico de satélites militares Skynet, no qual uma empresa contratada opera os satélites, enquanto representantes do governo e das forças armadas participam na definição das orientações. A comparação mostra que uma empresa contratada pode encarregar-se de ativar o sistema ou gerir tecnicamente uma missão, enquanto as decisões políticas e militares mais amplas ficam sob supervisão governamental. Mas a extensão dessa supervisão em cada serviço Starshield continua a ser uma questão em aberto.

Porque é difícil saber quem toma as decisões?

Na Starshield, há quatro funções diferentes que importa distinguir: conceber e construir os satélites, ser proprietário dos equipamentos, operar os satélites ou as redes e definir os usos permitidos. Estas tarefas podem caber a entidades diferentes, e a distribuição de responsabilidades pode mudar de um contrato para outro. Quando um serviço governamental depende de uma infraestrutura de comunicações comercial, torna-se mais difícil separar a responsabilidade técnica da responsabilidade política.

A verificação também é dificultada pelo sigilo de algumas missões e pela falta de informações financeiras e operacionais completas publicadas pela empresa. Além disso, o lançamento de um satélite num foguete Falcon 9 não revela, por si só, que tipo de carga ele transporta nem quem será o seu destinatário final. Por exemplo, um Falcon 9 foi lançado da Califórnia em 11 de maio de 2026, na missão NROL-172. Acredita-se que a missão tenha levado satélites Starshield para a órbita, mas afirmar isso como um facto confirmado iria além do que os dados disponíveis permitem concluir.

Estas lacunas são importantes porque afetam a confiança e a responsabilização. Os utilizadores querem saber se as suas ligações comerciais podem ser afetadas por decisões militares; os governos precisam de perceber quem tem capacidade para alterar ou interromper o serviço; e o debate público depende de uma compreensão clara dos limites da influência da empresa contratada. As respostas, porém, nem sempre estão no aspeto do satélite ou no nome da rede: dependem dos contratos e das regras de operação, que não são todos divulgados.

O que poderá acontecer à Starshield?

É provável que a Starshield ganhe importância nos sistemas espaciais militares dos Estados Unidos, à medida que continuarem os lançamentos de satélites de reconhecimento e o desenvolvimento da rede de transmissão de dados. Um dos próximos passos previstos é o protótipo da estrutura principal da rede, esperado até ao final de 2027. Se for concluído, será um avanço para ligar sensores de alerta de mísseis e sistemas de interceção através de uma infraestrutura de comunicações espaciais dedicada.

Os relatórios trimestrais da SpaceX poderão trazer mais informações sobre os contratos e as atividades relacionadas com o programa, caso as ações da empresa passem a ser negociadas em bolsa. Isso, porém, não garante a divulgação de detalhes sobre missões classificadas ou componentes de sistemas sensíveis. É provável que continue a haver algum grau de incerteza enquanto as preocupações com a segurança impedirem a publicação de todos os dados operacionais.

Por agora, a diferença essencial pode ser descrita com clareza: a Starlink é um serviço comercial de comunicações usado por muita gente, enquanto a Starshield é uma iniciativa governamental de segurança nacional que reúne comunicações protegidas, satélites e projetos de transmissão de dados e reconhecimento. Os dois sistemas têm ligações tecnológicas e operacionais, mas não são uma única rede aberta a todos. Para identificar quem é responsável por cada decisão, é preciso considerar os contratos, a propriedade e a supervisão, e não apenas o nome da SpaceX.

Conclusão

A diferença entre Starlink e Starshield mostra como tecnologias de satélites comerciais podem ser adaptadas à segurança nacional sem que as duas redes se tornem a mesma coisa. A Starlink tem mais de 11 mil satélites a cerca de 550 quilómetros de altitude e oferece serviço em mais de 160 países. Já a Starshield reúne satélites, comunicações e projetos governamentais, incluindo um contrato de 2,29 mil milhões de dólares e um protótipo previsto para o final de 2027. O episódio de outubro de 2026 na Ucrânia destacou a questão central: além de saber como a rede funciona, é preciso perceber quem tem autoridade para a orientar e até onde vai o poder da empresa e do governo.