Em resumo
A Bayer vendeu mais alguns medicamentos importantes e, por isso, espera ganhar mais dinheiro em 2026. Mas a empresa ainda enfrenta despesas elevadas com processos judiciais, dívidas e dificuldades nos negócios de agricultura e produtos de saúde. O resultado é uma melhora real, mas desigual: os medicamentos avançam, enquanto outros problemas continuam a pesar.
O crescimento volta a ganhar força
O negócio de medicamentos prescritos foi a principal fonte de melhora no terceiro trimestre. Sua receita chegou a 4,680 bilhões de euros, alta nominal de 8,0% ou de 6,4% quando se excluem os efeitos das variações cambiais e das mudanças no portfólio de negócios. Nubeqa, usado no tratamento do câncer, e Kerendia, indicado para doença renal crônica e insuficiência cardíaca, lideraram o crescimento.
As vendas de Nubeqa avançaram 58,3% em termos ajustados e chegaram perto de 1 bilhão de euros apenas no trimestre. As vendas de Kerendia cresceram 64,9%, e o medicamento atingiu o patamar anual que as empresas costumam chamar de “blockbuster”: sua receita ultrapassou 1 bilhão de euros nos 12 meses encerrados em 30 de setembro de 2026. Esses resultados são especialmente importantes para a Bayer porque mostram que o crescimento do segmento não depende de um único produto: mais de um tratamento está conquistando espaço no mercado.
O negócio de diagnóstico por imagem também avançou. As vendas de Beyonttra, lançado com sucesso no mercado europeu para tratar cardiomiopatia, quintuplicaram, acompanhadas por um forte aumento no volume vendido. Por outro lado, a perda da proteção de patentes continuou a reduzir a receita de alguns produtos mais antigos. As vendas de Xarelto, um anticoagulante oral, caíram 30,7%, enquanto as de Eylea recuaram 23,5%, embora a Bayer espere que a queda diminua gradualmente.
Dentro do portfólio de Eylea, a versão de 8 mg, que permite intervalos maiores entre os tratamentos, respondeu por cerca de 60% da receita do medicamento. Esse dado mostra como aperfeiçoar a forma de usar um tratamento já existente pode ajudar a compensar a perda de vendas causada pela concorrência após o fim da proteção da patente — ainda que não seja suficiente para interromper a queda geral do produto.
Lucro operacional maior, mas as pressões continuam
O lucro operacional do segmento de medicamentos, antes de itens especiais, subiu 23,6%, para 1,292 bilhão de euros. A melhora veio sobretudo do aumento das vendas, em especial de Nubeqa e Kerendia. As despesas com marketing e vendas também cresceram, à medida que a empresa continuou a investir na expansão dos negócios. O câmbio contribuiu positivamente, acrescentando 30 milhões de euros. Com isso, a margem de lucro antes dos itens especiais aumentou 3,5 pontos percentuais e chegou a 27,6%.
Com base nesse desempenho, a Bayer elevou sua previsão para a margem operacional ajustada do segmento de medicamentos em 2026: agora espera um resultado entre 25% e 27%, ante a faixa anterior, de 23% a 25%. A mudança indica que a administração vê o impulso dos produtos mais recentes como algo além de um salto passageiro em um único trimestre. Ainda assim, os resultados futuros dependerão da continuidade do crescimento desses medicamentos, dos gastos necessários para apoiá-los e da capacidade de compensar a queda dos produtos que perderam a proteção de suas patentes.
O retrato do grupo: mais vendas, mas prejuízo líquido
A receita da Bayer no terceiro trimestre foi de 10,053 bilhões de euros. Isso representa um aumento nominal de 4,1%, mas o crescimento foi de apenas 1,9% após o ajuste pelos efeitos cambiais e pelas mudanças no portfólio de negócios. As variações cambiais tiveram um efeito positivo de 246 milhões de euros. Já o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, excluídos os itens especiais, subiu 6,9%, para 1,615 bilhão de euros, incluindo um efeito cambial positivo de 36 milhões de euros.
Apesar da melhora nos indicadores operacionais ajustados, o grupo registrou prejuízo operacional de 110 milhões de euros, contra um prejuízo de 543 milhões no mesmo período do ano anterior. Uma das pressões foi a redução de 307 milhões de euros no valor contábil da marca Xofigo, no segmento de medicamentos. O resultado operacional também incluiu despesas especiais líquidas de 407 milhões de euros, ante 1,064 bilhão de euros um ano antes. Entre elas estavam a redução de 215 milhões de euros no valor da marca Claritin, no segmento de saúde do consumidor, e despesas relacionadas a disputas judiciais.
Ao fim do período, o grupo registrou prejuízo líquido de 672 milhões de euros, menor que o prejuízo de 963 milhões de euros contabilizado um ano antes. O lucro ajustado por ação, porém, caiu para 0,31 euro, ante 0,49 euro. Segundo a empresa, a melhora operacional não foi suficiente para compensar os efeitos não monetários das mudanças nas taxas de juros. Portanto, os números de vendas e de lucro ajustado não contam, sozinhos, toda a história: avaliações contábeis, custos de financiamento e itens especiais continuam a influenciar o resultado final.
Caixa e dívida sob o peso de acordos judiciais
O fluxo de caixa livre foi negativo em 293 milhões de euros, depois de ter apresentado um saldo positivo de 596 milhões de euros no período correspondente. A Bayer atribuiu o resultado, entre outros fatores, ao aumento dos pagamentos previstos para resolver processos judiciais. Isso ajuda a explicar a diferença entre a melhora do lucro operacional ajustado e a capacidade de convertê-lo em dinheiro efetivamente disponível: obrigações judiciais podem consumir recursos mesmo quando os negócios principais avançam.
Em contrapartida, a dívida financeira líquida caiu para 31,083 bilhões de euros em 30 de setembro de 2026. O valor ficou 2,564 bilhões de euros abaixo do registrado em 30 de junho e 1,625 bilhão de euros abaixo do nível observado no mesmo período do ano anterior. O principal motivo da redução foi o recebimento de 3,0 bilhões de euros da Apollo Global Management, em troca da venda de uma participação minoritária, anunciada anteriormente, em uma nova empresa. É importante distinguir a melhora no nível da dívida do fluxo de caixa operacional do trimestre: o pagamento ligado à transação fortaleceu o balanço, mas o fluxo de caixa livre continuou negativo.
Com isso, a Bayer melhorou em 1 bilhão de euros sua previsão anual de fluxo de caixa livre, que passou para uma faixa entre -1,5 bilhão e -0,5 bilhão de euros. A estimativa anterior variava entre -2,5 bilhões e -1,5 bilhão de euros. A empresa também reduziu a previsão de dívida líquida no fim do ano para 28,0–29,0 bilhões de euros, ante a faixa anterior, de 29,0–30,0 bilhões. As revisões mostram uma perspectiva melhor, mas não significam que a companhia espere um fluxo de caixa livre positivo em 2026: toda a faixa prevista permanece negativa.
Agricultura e produtos de consumo ficam para trás
No segmento de Ciências Agrícolas, as vendas somaram 3,884 bilhões de euros. A alta nominal foi modesta, de 0,7%, mas, após os ajustes cambiais e de portfólio, houve queda de 2,4%. O desempenho foi prejudicado sobretudo por efeitos regulatórios negativos e por condições climáticas desfavoráveis na Europa, no Oriente Médio e na África, além da região da Ásia-Pacífico. A América Latina, por sua vez, teve forte crescimento, impulsionado pela maior procura por sementes de milho e soja para a safra de verão.
As vendas de sementes de milho e das características vegetais associadas ficaram próximas às do ano anterior, com queda ajustada de 0,1%. Já as vendas de sementes de soja e de suas características aumentaram 4,5%. Em contrapartida, as vendas de fungicidas e de herbicidas sem glifosato recuaram 8,6% cada. No trimestre — um período de menor importância sazonal para esse negócio —, o lucro operacional ajustado do segmento agrícola caiu 41,3%, para 101 milhões de euros. A principal razão foi o aumento dos custos de fabricação e distribuição, embora a comparação também tenha sido afetada por fatores favoráveis no período anterior. O câmbio teve efeito positivo de 9 milhões de euros, mas a margem ajustada encolheu 1,9 ponto percentual, para 2,6%.
Os produtos de saúde vendidos sem receita médica geraram 1,445 bilhão de euros em receita, alta nominal de 2,1%, mas crescimento ajustado de apenas 0,1%. A categoria de produtos gastrointestinais avançou 4,5%, impulsionada pelo forte aumento das vendas de MiraLAX nos Estados Unidos. Os produtos dermatológicos cresceram 3,0%, sobretudo graças a Bepanthen. Em sentido contrário, os suplementos alimentares caíram 3,4%, e os produtos para alergia e resfriado recuaram 2,9%. Os negócios cresceram na Ásia-Pacífico e na América Latina, mas diminuíram na Europa, no Oriente Médio e na África, depois de um trimestre anterior forte. O mercado dos Estados Unidos continuou fraco.
O lucro operacional ajustado do segmento de saúde do consumidor caiu 4,4%, para 347 milhões de euros, e a margem recuou 1,7 ponto percentual, para 24,0%. O controle de despesas e os preços não foram suficientes para compensar o aumento dos investimentos em marketing de novos produtos. A receita obtida com a venda de uma marca pequena e não estratégica também contribuiu para o resultado, assim como o efeito cambial positivo de 7 milhões de euros. A comparação mostra que a melhora no segmento de medicamentos não se estendeu automaticamente aos demais negócios da Bayer.
Novos medicamentos e disputas judiciais no horizonte
Além dos resultados comerciais, a Bayer anunciou que o Asundexian recebeu, na China, na semana anterior, autorização para a prevenção secundária de AVCs, sob o nome comercial Sunharbo. Segundo a empresa, trata-se do primeiro inibidor do fator XIa da coagulação aprovado em qualquer lugar do mundo. A administração diz que sua próxima prioridade é buscar novas aprovações. A empresa também atribuiu o desenvolvimento acelerado do tratamento ao trabalho de suas equipes científicas em Wuppertal ao longo de mais de uma década, às mudanças regulatórias e ao uso de ferramentas de inteligência artificial. Segundo a Bayer, esses fatores ajudaram a disponibilizar o medicamento aos pacientes um ano antes do previsto.
As disputas judiciais nos Estados Unidos continuam a afetar diretamente as previsões e os cálculos de liquidez. Na semana anterior, foi anunciado o primeiro veredito em um caso relacionado ao glifosato desde a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, que favoreceu a empresa por sete votos a dois. A administração considerou que a decisão favorável à Bayer dos 12 jurados no novo caso pode influenciar as expectativas de quem pensa em entrar com um processo, mas afirmou que lidará com os próximos casos da forma que considerar melhor para a companhia. A empresa também aguarda uma decisão importante sobre um acordo coletivo. Esses acontecimentos não eliminam as despesas judiciais já existentes, mas ajudam a explicar por que acordos e pagamentos relacionados a processos seguem como parte central das previsões de caixa.
Previsões melhores, mas ainda com cautela
A Bayer elevou sua previsão para o indicador de lucro antes dos itens especiais do grupo para 9,8–10,3 bilhões de euros, considerando taxas de câmbio constantes. Antes, a faixa prevista era de 9,6–10,1 bilhões de euros. A revisão veio acompanhada de estimativas melhores para o fluxo de caixa e a dívida líquida, enquanto as previsões para os demais indicadores anuais permaneceram iguais às apresentadas no relatório financeiro semestral. Assim, a revisão se apoia claramente no desempenho do segmento de medicamentos, e não em uma melhora ampla e uniforme de todas as atividades.
A administração financeira afirma que suas prioridades incluem fortalecer o balanço, aumentar a produtividade, melhorar a geração de caixa e ampliar a flexibilidade financeira para investir no crescimento futuro. Para isso, será necessário manter o avanço de Nubeqa, Kerendia e outros produtos, controlar os custos de marketing e fabricação, enfrentar a perda da proteção de patentes e administrar as obrigações judiciais. A previsão de fluxo de caixa livre negativo, mesmo após a melhora, lembra que a recuperação da flexibilidade financeira ainda não foi concluída.
Conclusão
Os resultados da Bayer no terceiro trimestre de 2026 mostram um cenário misto, mas com sinais de melhora. O segmento de medicamentos prescritos cresceu com força, e a empresa elevou suas previsões de margem e de lucro para o grupo, além de reduzir a estimativa de dívida líquida e melhorar a faixa prevista para o fluxo de caixa livre. Ainda assim, o prejuízo líquido persistiu, o fluxo de caixa livre ficou negativo, e os negócios agrícolas e de saúde do consumidor enfrentaram pressões variadas. As despesas judiciais também continuaram a consumir recursos. A aposta da Bayer para o ano é que vários medicamentos mais recentes sigam ampliando suas vendas e que esse crescimento se transforme, aos poucos, em mais caixa e em um balanço financeiro mais flexível.